Zacarias 7-8: Repreensão, Arrependimento, Jejuns e Festas

Zacarias teve as suas visões noturnas em 520 AC. Dois anos mais tarde, em 518 AC. (o quarto ano do reino de Dario), êle recebeu quatro mensagens do Senhor. Tais mensagens eram resposta a uma pergunta de Zacarias sôbre a observância de certas tradições relacionadas com o jejum. Uma delegação judaica de Betel foi a Jerusalém para perguntar ao profeta se a nação devia continuar a jejuar em memória da destruição de Jerusalém (7:23). A pergunta feita pela delegação implicava o desejo de pôr fim à auto-imposta observância religiosa de jejuar no quinto mês, data esta que comemorava a destruição da cidade e do templo por Nabucodonozor (2 Reis 25:8-10). O Senhor deu quatro mensagens em resposta a esta pergunta, mas a resposta final é apenas dada na quarta mensagem (8:18-19). As mensagens são como segue:

1. Uma mensagem de repreensão (7:4-7)

A primeira mensagem divina lembrava ao povo que Deus avisara os seus antepassados através dos antigos profetas, que desejava verdadeira adoração  e não apenas a observância externa de ritos sem se arrependerem dos seus pecados (Isaías 1:11-20). “Quando vocês jejuavam e vos lamentáveis no quinto e sétimo meses durante aqueles setenta anos, tereis de facto jejuado por Mim? – Por Mim? Quando comeis e bebeis não comeis e bebeis por vós?” (7:5-6). A repreensão de Deus era contra o formalismo vasio, sem realidade espiritual, pois ou a jejuar ou nas suas festas êles não o faziam pelo Senhor mas sim por êles próprios. Êles mantinham apenas a religião judaica tradicional, sem servirem na realidade Deus e sem se arrependerem dos seus pecados.

Embora Deus lhes comandasse períodos nacionais de jejum e de humildade perante Si durante tempos de crise (Joel 1:14), tais periodos não deviam ser adoptados de maneira casual, e sem arrependimento: “Não será o jejum que Eu escolhi quebrar os laços da maldade?… então a vossa luz brilhará como a manhã, a vossa cura surgirá ràpidamente, e a vossa rectidão irá à vossa frente…então clamareis, e o SENHOR responder-vos-á” (Isaías 58:6-9).

2. Uma mensagem de arrependimento (7:8-14)

Uma clara mensagem de arrependimento foi de novo enviada a Israel, pois essa era a única maneira da nação poder escapar ao julgamento de Deus sôbre o pecado: “Assim diz o SENHOR dos exércitos: Fazei verdadeira justiça, mostrai piedade e misericórdia cada um pelo seu irmão. E não oprimais a viuva nem o órfão, o estrangeiro ou o pobre. Que nenhum de vós planeie o mal no coração contra o seu irmão. Mas êles recusaram-se a obedecer, encolheram os ombros e fecharam os ouvidos, de maneira que não podiam ouvir. Sim, êles endureceram os seus corações como pederneira, negando-se a ouvir a lei e as palavras que o SENHOR dos exércitos lhes tinha enviado pelo Seu Espírito através dos antigos profetas. E assim sobreveio-lhes a grande ira do SENHOR dos exércitos” (7:9-12).

O Senhor estava à procura das seguintes provas de uma vida santificada e de rectidão, em vez de uma vida egoísta que é caracterizada pela apatia, impermeabilidade, mentiras e maus pensamentos:

·       A prática de verdadeira justiça. David administrou julgamento e justiça para com todo o seu povo (1 Crónicas 18:14). Fazer o contrário é pecado: “Aqueles que justificam o mau e condenam o justo, ambos são da mesma maneira uma abominação para o SENHOR” (Prov. 17:15).

·       A oferta de  misericórdia e compaixão para com os compatriotas israelitas. Estas são características divinas (Êxodo 34:6, Deuter. 30:3), que deviam ser aplicadas aos necessitados e destituidos por aqueles que receberam de Deus misericórdia e compaixão.

·       O cuidado pelas viuvas, pelos órfãos, ou por crianças de famílias de um só dos pais, bem assim como pelos estranhos e gente pobre. “O SENHOR vosso Deus… não mostra parcialidade nem aceita suborno. Êle administra justiça com os órfãos e viuvas, e ama o estranho dando-lhe comida e vestuário. Portanto, amai o estranjeiro, porque vós fosteis estranjeiros na terra do Egipto” (Deut. 10:17-19). Israel, bem assim como todas as outras nações, não devem oprimir os fracos e os pobres e também não devem desprezar os estranhos que se lhes dirigem a pedir auxílio em tempos de crise.

Israel endureceu o seu coração contra Deus, recusou arrepender-se e cometeu abertamente todos os actos pecaminosos contra os quais tinham sido avisados. Rejeitou os avisos que Deus lhes dera através do Espírito Santo e dos ministérios de vários profetas (7:12). Ao agir desta maneira, acenderam a ira de Deus sôbre si próprios. E o resultado foi que Deus não respondeu ás suas orações quando estavam aflitos (7:13). Em vez disso, foram levados cativos pelos inimigos e espalhados entre todas as nações. Deus diz: “Eu dispersei-os como um remoinho de vento entre todas as nações que não tinham conhecido” (7:14). O exílio babilónico dos judeus foi apenas um cumprimento parcial desta profecia, pois ela diz respeito claramenete à sua dispersão internacional. E esta só aconteceu no tempo do Novo Testamento, depois da nação ter rejeitado Jesus como Messias.

O Senhor Jesus avisou Israel do que lhes ia acontecer, salientando-lhes o facto que também seriam julgados por aprovarem e perpetuarem as más obras dos seus antepassados: “Ai de vós, escribas e Fariseus, hipócritas… vós sois testemunhas contra vós próprios que sois filhos daqueles que assassinaram os profetas… Enchei portanto a medida da culpa de vossos pais… para que possa vir sôbre vós todo o sangue recto derramado sôbre a Terra, desde o sangue do recto Abel ao sangue de Zacarias, filho de Berequias, que vós assassinastes entre o templo e o altar. Por certo vos digo, todas estas coisas cairão sôbre esta geração” (Mateus 23:27-36). Abel foi o primeiro mártir das Escrituras Hebraicas do Velho Testamento, e Zacarias o último.

A geração de judeus a quem o Senhor Jesus se dirigia, enchia a trasbordar a medida das iniquiddes de seus pais. Êles não  protestaram quando Herodes matou João Batista, que preparava o caminho para o Messias. Jesus criticou-os acêrbamente por não terem aceitado e acreditado o grande profeta (Mateus 21:25). Depois disso, trairam o Messias e clamaram pela Sua execução (Mateus 27:22). Depois apedrejaram Estêvão, que foi o primeiro mártir da igreja do Messias. Numa comprida alocução, Estêvão lembrou aos dirigentes judaicos os pecados e rebelião dos antepassados  (Actos 6:8, 7:60). Êle comparou os que mataram os profetas, aos dirigentes do seu tempo, que insistiram pela morte do Messias, e acusou-os de resistirem e rejeitarem o Espírito Santo: “Vós teimosos e incircuncidados de coração e de ouvidos! Vós resistis sempre ao Espírito Santo; o mesmo que os vossos pais fizeram fazeis vós também. Qual dos profetas não foi perseguido pelos vossos pais? E mataram aqueles que prognosticaram a vinda do Justo, de quem vós agora vos tornásteis traidores e assassinos” (Actos 7:51-52). Os julgamentos de Deus caíram sôbre êles.

Em AD 70, Jerusalém foi destruida pelos romanos e os judeus sobreviventes foram levados cativos, começando assim a sua dispersão internacional por todas as nações (Lucas 21:20,24) – situação que se prolongaria até à última geração da dispensação cristã. Apenas então voltariam os judeus não salvos à sua terra – o que de facto acontece desde 1948 – ao mesmo tempo que caminhariam para um tempo de grande angústia, antes do Messias vir para salvar o resíduo da nação. E o chamamento de Deus a um arrependimento nacional, no tempo de Zacarias, terá então sido obedecido por completo.

3. Uma mensagem de restauração (8:1-17)

Enquanto que o capítulo 7 se assemelha à chamada ao arrrependimento em 1:2-6, e se refere ao aviso das graves consequências de não darem ouvidos a tal chamada, o capítulo 8 reflete as bênçãos prometidas retratadas através das visões noturnas (1:7 - 6:8), como  sendo o resultado de um genuino arrrependimento e mudança de coração. A terceira e quarta mensagens descrevem a restauração depois do exílio babilónico durante o tempo de Zacarias, como prelúdio de bênçãos futuras na era do milénio. Estas bênçãos futuras estendem-se longe para além de Israel, e referem-se a um tempo em que a rectidão, a justiça e a paz vão encher a Terra.

O zêlo de Deus para com Sião (isto é, o povo de Jerusalém) é fortemente salientado (8:2; veja-se também 1:14; Joel 2:18). Isso levará a grandes bênçãos: “Assim diz o SENHOR: Eu regressarei a Sião e residirei no meio de Jerusalém” (8:3). Esta promessa cumprir-se-á no milénio, depois de Cristo ter voltado a Jerusalém para reinar do trono de David (veja-se Actos 15:16-17). “Jerusalém será chamada a Cidade da Verdade, a Montanha do SENHOR dos exércitos, a Montanha Santa” (8:3; veja-se Isaías 2:2-3). E será a capital do mundo.

Durante êsse tempo, todo o resíduo de Israel será salvo: “Assim diz o SENHOR dos exércitos:  Olhai, Eu salvarei o meu povo da terra do Oriente e da terra do Ocidente; Eu trá-lo-ei de volta e viverão no meio de Jerusalém. Êles serão o Meu povo e Eu serei o seu Deus em verdade e rectidão” (7:8). Numa profecia semelhante em Isaías, Deus disse: “Eu sou o SENHOR vosso Deus, O Santo de Israel, o vosso Salvador… Porque fostes preciosos à Minha vista, fostes honrados, e Eu vos amei… Não temais, porque Eu estou convosco; Eu trarei os vossos descendentes do Oriente e ajuntar-vos-ei do Ocidente; Eu direi ao Norte - dá-mos! E ao Sul, não fiques com êles!” (Isaías 43:3-6).

O resíduo salvo de Israel será próspero na terra (8:11-12). E será também uma bênção para todas as nações do mundo (8:13: veja-se também Romanos 11:12). Embora Deus seja um Deus de rectidão que castiga o pecado, Êle é também um Deus de profundo amor e compaixão que deseja perdoar e restaurar: “Da mesma maneira que Eu decidi castigar-vos quando os  vossos pais Me provocaram à ira, diz o SENHOR dos exércitos, e vós não vos arrependesteis, assim nestes dias Eu estou resolvido a fazer bem a Jerusalém e à casa de Judá. Não temais” (8:14-5).

4. Uma mensagem de alegria (8:18-23)

O Senhor esperou até este momento para responder à pergunta feita pelos delegados da delegação de Betel sôbre se deviam ou não continuar a jejuar e a lamentar-se em comemoração da destruição de Jerusalém e do templo (7:2-3). Deus disse que os jejuns se tornariam em alegria, em tempos alegres e festas felizes (8:19). São incluidos aqui dois jejuns extra, que não foram mencionados anteriormente (Veja-se 7:3,5), um no décimo dia do décimo mês para lembrar o comêço do cêrco a Jerusalém (2 Reis 25:1-2; Jeremias 39:1) e outro no nono dia do quarto mês, para lembrar a conquista de Jerusalém por Nabucodonozor, quando a muralha da cidade foi derrubada (2 Reis 25:3-4; Jeremias 39:2). Êstes jejuns foram todos auto-decretados e tinham sido praticados durante 70 anos acompanhados de corações tristes e motivos errados e egoístas (Veja-se 7:5-7).

No entanto, os jejuns não terminaram no tempo de Zacarias e  continuam a ser praticados – até mesmo hoje em dia. As previsões para o futuro próximo, durante a angústia de Jacob (Jeremias 30:7), são que haverá aínda mais festividades transformadas em jejuns (12:10-14; veja-se também Amos 8:10). Mas então, depois do regresso do Messias em poder e glória para restaurar por completo Israel e Jerusalém, tais jejuns serão transformados em festas que serão o reflexo da alegria de Israel pela sua lavagem espiritual e pelo reino milenário do Messias. Portanto, vai haver uma altura em que Israel não mais recordará nem se lamentará pelos desastres do passado, mas celebrará sim, com festas alegres em honra do seu Salvador (Isaías 61:2-3; 65:18-19).

A glória do Messias brilhará longe para além de Israel, iluminando o mundo inteiro, “porque a Terra estará cheia do conhecimento da glória do SENHOR, como as águas cobrem os mares” (Habakuk 2:14). E a glória do SENHOR será proclamada tão profundamente por Israel, que todas as nações a notarão e desejarão participar das suas bênçãos.

“Assim fala o SENHOR dos exércitos: “Hão-de aínda vir povos, habitantes de muitas cidades; os habitantes de uma cidade irão a outra cidade dizendo – continuemos a ir e a orar diante do SENHOR, e a procurar o SENHOR dos exércitos. Eu mesmo também vou. Sim, muitos povos e nações fortes hão-de vir à procura do Senhor dos exércitos em Jerusalém e a orar diante do SENHOR… Nêsses dias dez homens de cada lingua das nações agarrarão a manga de um judeu dizendo-lhe – deixa-nos ir contigo pois ouvimos que Deus está convosco” (8:20-23).

Jeremias confirma êste  maravilhoso futuro de Jerusalém: “Nessa altura,  Jerusalém será chamada O Trono do SENHOR, e todas as nações se Lhe chegarão ao Nome do SENHOR, a Jerusalém; não mais caminharão na teimosia do seu vil coração” (Jeremias 3:17; veja-se também Miquéas 4:1-3). Esta época maravilhosa começará apenas depois da Segunda Vinda do Messias, quando Êle pousar o pé no Monte das Oliveiras em Jerusalém (14:4-5).